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QUARESMA: Origem e Configuração Actual

A Quaresma é um período de cerca de 40 dias, que se destina a preparar-nos para a celebração e vivência da Páscoa. “O Tempo da Quaresma destina-se a preparar a celebração da Páscoa: a liturgia quaresmal prepara para a celebração do mistério pascal tanto os catecúmenos, através dos diversos graus da iniciação cristã, como os fiéis, por meio da recordação do Baptismo e das práticas de penitência” (Normas Gerais do Ano Litúrgico e do Calendário [NGALC], n. 27).
Vamos por partes:

1. A Quaresma existe por causa da Páscoa. “O sagrado Tríduo da Paixão e Ressurreição do Senhor é o ponto culminante de todo o ano litúrgico, porque a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus foi realizada por Cristo especialmente no seu mistério pascal, pelo qual, morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando restaurou a vida. A proeminência que na semana tem o Domingo, tem-na no ano litúrgico a solenidade da Páscoa” (NGALC, n.º 18). Ora, se a Páscoa, o Tríduo Pascal, é o centro do ano litúrgico, compreende-se a necessidade de nos prepararmos cuidadosamente para a sua celebração. E trata-se de nos prepararmos e não tanto de prepararmos simplesmente a celebração da Páscoa, porque a preparação pode ser apenas dos espaços, das festas, das celebrações, deixando que o fundamental nos passe ao lado. Assim, a Quaresma não tem sentido em si mesma: existe por causa da páscoa e para nos prepararmos para a Páscoa.

2.
A Quaresma tem uma dupla característica: baptismal e penitêncial. A Quaresma é o período de preparação mais intensa dos catecúmenos para o baptismo, daí o seu carácter baptismal. Mas é também verdade que os sinais exteriores da Quaresma apontam sobretudo para a dimensão penitêncial: a cor roxa, a ausência do Aleluia e do hino de Glória, a ausência de ornamentação do altar... Note-se, porém, que essa dimensão penitencial não se compreende sem a dimensão baptismal: o que se pretende com a prática penitencial é recuperar a vida baptismal que recebemos. “Pelos sacramentos da iniciação cristã, o homem recebe a vida nova de Cristo. Ora, esta vida, nós trazemo-la «em vasos de barro» (2 Cor 4, 7)” (Catecismo 1420). Esta vida nova está, pois, sujeita à nossa fragilidade e é, muitas vezes, marcada pelo pecado, pela infidelidade. Usando uma imagem: a veste branca, que recebemos no Baptismo, símbolo da vida nova, vai ficando suja com a passar do tempo, não por qualquer fatalidade, mas porque nem sempre a sabemos preservar branca e limpa. É por isso que a Quaresma une estes dois aspectos, mesmo quando, numa comunidade, não há catecúmenos que se preparam para o Baptismo.
Uma Carta da Congregação do Culto Divino sobre a preparação das festas pascais, pede aos pastores que ajudem os fiéis a compreenderem a importância, para o crescimento da sua vida espiritual, da profissão de fé baptismal, que eles serão convidados a renovar na mesma Vigília, «terminados os exercícios da observância quaresmal» (CCD, Carta sobre a Preparação e a celebração das festas pascais [16 de Janeiro de 1988], n. 8). Assim, durante a Quaresma, os fiéis, ouvindo de uma forma mais intensa a Palavra de Deus e aplicando-se mais à oração, preparam-se, pela Penitência, para renovar as promessas do Baptismo» (CCD, Carta 6).

Compreender porque é que a Quaresma tem esta dupla característica, implica olhar para o origem e desenvolvimento progressivo que este tempo litúrgico sofreu.
As origens da Quaresma não são claras. O seu elemento mais antigo é o jejum. Já desde o século II que os cristãos se preparavam para a Páscoa com um jejum de dois dias. Tratava-se, é certo, do jejum pascal. Com o tempo, a duração do jejum foi aumentando.
Em finais do século III ou inícios do IV surge, no Egipto, um jejum de quarenta dias. Não tinha, inicialmente, o sentido de preparação para a Páscoa; destinava-se antes a celebrar o jejum do Senhor no deserto, ao longo de 40 dias. Porém, depressa este período de jejum se começou a orientar para preparação da celebração da Páscoa. E já em 325, o cânon 5 do Concílio de Niceia fala da Quadragesima paschae (Quaresma) como de algo normal e já conhecido de todos.

Historicamente, a Quaresma nasce da conjugação de 3 itinerários distintos:
- Por um lado, uma vez que a Vigília Pascal era a grande data da celebração da iniciação cristã, a noite baptismal por excelência, o período que a antecedia era um tempo de preparação intensa dos que iam ser baptizados. Daí o carácter baptismal deste tempo.
- Por outro lado, esse mesmo período era também o da preparação dos penitentes para a reconciliação, na manhã de quinta-feira santa.
- Por fim, dada a importância das celebrações pascais, sentiu-se a necessidade de proporcionar à comunidade cristã um tempo de preparação, marcado pelos dois itinerários já indicados - baptismal e penitencial. O modelo desse tempo vai-se então buscar à passagem de Cristo pelo deserto, durante 40 dias. Daí que esse texto evangélico se tenha fixado para o primeiro domingo da Quaresma

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Foi, pois, no decurso do século IV que a Quaresma, como período de 40 dias de jejum de preparação para a Páscoa, se formou. Em Roma, ainda em meados do século IV, o jejum de preparação para a Páscoa era de apenas 3 semanas (isto testemunha Sócrates escolástico); nos 3 domingos liam-se os textos do Evangelho de São João do encontro de Jesus com a Samaritana (Jo 4), da cura do cego de nascença (Jo 9) e da ressurreição de Lázaro (Jo 11), isto é, os grandes textos evangélicos que serviam para preparar os catecúmenos para o Baptismo. Foi no período entre 354 e 384 que, em Roma, se chegou a um tempo de 40 dias de preparação para a Páscoa. A Quaresma passou a iniciar-se no VI domingo antes da Páscoa. Disso dá claro testemunho Leão Magno, um século depois, nos seus sermões para o primeiro domingo da Quaresma.
A Bíblia associa este número a períodos de espera, de preparação de algo importante, de humilhação, de esforço, de penitência e de luta. Só no fim dos 40 dias ou anos há o encontro, o prémio, o dom, a vitória. Abundam as referências bíblicas ao número 40. O facto de Jesus se ter retirado para o deserto durante 40 dias recorda-nos os 40 anos de peregrinação de Israel pelo deserto, a caminho da terra prometida; tempo de provação e dificuldade, mas também de experiência da misericórdia de Deus; tempo de tentação e murmuração contra o Senhor, mas também de Aliança. Os 40 dias no deserto recordam-nos os 40 dias que Moisés esteve no Sinai, em jejum e na presença do Senhor. Os 40 dias que Elias caminhou pelo deserto, em direcção ao monte Horeb, onde encontrou o Senhor; caminhada na qual o profeta sentiu fome e cedeu ao cansaço e ao desânimo, mas também na qual foi fortalecido pelo alimento que Deus lhe enviou e animado a continuar a marcha. Os 40 dias durante os quais o gigante Golias, o filisteu, desafiou Israel, até ser derrotado e morto por David. Ainda os 40 dias de penitência dos ninivitas, depois da pregação de Jonas. Em conclusão: 40 dias porque, na Bíblia, esse é o tempo simbólico da preparação para os grandes momentos e porque esse foi o tempo que Jesus foi para o deserto.

O jejum, que tem claro sentido penitencial, no mundo bíblico, estava profundamente ligado ao simbolismo do número 40: na travessia do deserto, ao longo de 40 anos, o povo sentiu fome; Moisés jejuou nos 40 dias no Sinai; Elias sentiu fome na sua caminhada para o Horeb; os ninivitas fizeram penitência e jejuaram depois da pregação de Jonas; Jesus retirou-se para o deserto e jejuou.
Dizia que a Quaresma começava seis (6) domingos antes da Páscoa. Porém, em finais do século V, começam a ganha importância os dias de jejum da quarta e sexta-feira antes desse primeiro domingo da Quaresma: eram uma espécie de preparação para a penitência quaresmal. Este recuo do início da Quaresma estava ligado ao desejo de completar realmente os 40 dias de penitência: se os domingos não eram dias penitenciais, então era necessário juntar mais uns dias para completar os 40 (a conta, porém, saí errada, pois se contabilizaram os dias da semana santa, quando a partir de quinta-feira santa à tarde deixa de ser Quaresma…).
Nessa quarta-feira antes do primeiro domingo da Quaresma introduziu-se o hábito de impor cinza sobre a cabeça dos penitentes públicos que se preparavam para ser reconciliados na quinta-feira santa seguinte.

A partir do século VI e VII, o tempo da Quaresma foi-se alargando com a “pré-quaresma”, constituída progressivamente pelo VII domingo antes da Páscoa (quinquagesima), pelo VIII (sexagesima) e pelo IX (septuagesima). Esta configuração entrou no Missal de 1570 e manteve-se até à reforma litúrgica depois do Vaticano II.

O Vaticano II (SC 109-110) definiu claramente o sentido que deveria tomar a reforma deste tempo litúrgico:
109. Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Baptismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal. Por isso:
a) utilizem-se com mais abundância os elementos baptismais próprios da liturgia quaresmal e retomem-se, se parecer oportuno, elementos da antiga tradição;
b) o mesmo se diga dos elementos penitenciais. Quanto à catequese, inculque-se nos espíritos, de par com as consequências sociais do pecado, a natureza própria da penitência, que é detestação do pecado por ser ofensa de Deus; nem se deve esquecer a parte da Igreja na prática penitenciai, nem deixar de recomendar a oração pelos pecadores.
110.
A penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e individual. Estimule-se a prática da penitência, adaptada ao nosso tempo, às possibilidades das diversas regiões e à condição de cada um dos fiéis.

São estas orientações que as Normas Gerais do Ano Litúrgico e do Calendário procuram concretizar.
Assim, na sua actual configuração, a Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas, e termina com a celebração da Missa Vespertina da Ceia do Senhor, que já pertence ao Tríduo Pascal (28). Neste tempo, particular destaque merece a última semana, a Semana Santa, que começa com a celebração do “Domingo de Ramos na Paixão do Senhor”, e “destina-se a comemorar a Paixão de Cristo desde a sua entrada messiânica em Jerusalém” (31).

Dom Abade