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QUARESMA: Vivência e espiritualidade

Até ao momento fomos vendo os elementos mais importantes da história da Quaresma e da sua configuração actual. Mas esses elementos podem induzir-nos em erro, pois podem deixar-nos a ideia errada que o importante é saber umas coisas acerca deste tempo litúrgico. Só que o mais importante não é isso: o mais importante é a nossa vivência intensa deste tempo litúrgico tão rico. Por isso, com base no que referi anteriormente, gostaria agora de orientar a reflexão para os aspectos vivenciais da Quaresma, que é o que realmente importa.

A Quaresma, como tempo de preparação para as festas pascais, com a duração de cerca de 40 dias, inspirou-se na referência cronológica dos evangelistas, que nos dizem que Jesus, no início do seu ministério público, foi para o deserto durante 40 dias, jejuou e foi tentado. A Quaresma é imitação de Jesus.
Não se trata de uma nova concepção de Quaresma. S. Jerónimo (século IV), a quem devemos o mais antigo testemunho da existência da Quaresma em Roma, numa das suas homilias relaciona expressamente essa prática com os 40 dias de jejum de Jesus no deserto:
Os servos do Senhor devem jejuar sempre, mas mais ainda agora que nos preparamos para o sacrifício do Cordeiro, para o sacramento do Baptismo, para a Comunhão do Corpo e do Sangue de Cristo (...) Por isso, irmãos caríssimos, a partir do momento em que fazemos a nossa preparação para o Sacramento do Senhor, através de um jejum de quarenta dias, jejuamos em expiação dos nossos pecados, durante tantos dias quantos o próprio Senhor quis jejuar pelas nossas iniquidades (S. Jerónimo, Homilia sobre a Quaresma).

A própria liturgia nos recorda esta ligação entre o jejum de Jesus durante 40 dias e a nossa Quaresma. Tomemos como exemplo o Hino II de Hora Intermédia:
Como Israel, vosso povo, / caminhou pelo deserto, / a vossa Igreja percorre / os caminhos da Quaresma.
Quarenta dias passastes, / Senhor, nos áridos montes, / antes que a vossa Palavra / proclamasse em a Boa Nova.
As tentações do Inimigo / firmemente rejeitastes, / Ó vencedor do pecado, / Redentor da humanidade.

Também o Papa João Paulo II, numa Audiência Geral alude a este sentido da Quaresma:
“Pode dizer-se que Cristo introduziu a tradição do jejum de quarenta dias no ano litúrgico da Igreja, porque Ele próprio jejuou quarenta dias e quarenta noites antes de começar a ensinar. Com este jejum de quarenta dias a Igreja é, em certo sentido, chamada, cada ano, a seguir o seu Mestre e Senhor, se quiser pregar eficazmente o seu Evangelho" (João Paulo II, Audiência Geral de 28/2/1979).

Por isso, cada ano, no primeiro Domingo da Quaresma, a Igreja nos apresenta este episódio, nas versões de Mt, Mc ou Lc. O tempo da Quaresma e a sua duração simbólica de 40 dias têm como modelo o próprio Cristo que se retira para o deserto para orar e jejuar, que combate e vence o tentador com a Palavra de Deus. Neste percurso, Jesus é, ao mesmo tempo, o mestre, o modelo e o protagonista.

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A Quaresma é a nossa ida para o deserto, à imitação de Cristo. Tempo de penitência e de conversão; tempo de recordar a nossa condição baptismal e a constante necessidade de confrontar a nossa vida com Cristo. No fundo, todo o programa da Quaresma se pode sintetizar numa palavra: conversão! Os catecúmenos são desafiados a aprofundar a sua conversão a Cristo; os fiéis já baptizados são chamados a tomar consciência de que a conversão a Cristo é tarefa de toda uma vida (e que não basta dizer que se é baptizado). A pregação de Jesus começa, precisamente, com um convite à conversão: “Arrependei-vos” (Mc 1, 15). Já no rito de imposição das cinzas, no início da Quaresma, essa era também a forma como era apresentado este tempo litúrgico, através da exortação: “Convertei-vos e acreditai no Evangelho”. A conversão implica sempre esforço pessoal. A liturgia caracteriza esse esforço como luta contra o mal, como combate, como mortificação.

Os meios para a conversão

Em que consiste a “penitência quaresmal” di-lo a Colecta do III Domingo da Quaresma:
“Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na oração e no amor fraterno os remédios do pecado, olhai benigno para a confissão da nossa humildade...”

Os 3 grandes meios que este “tempo favorável” nos apresenta como caminho de penitência e conversão são, pois: o jejum, a oração e o amor fraterno. Esta trilogia apareceu-nos logo no Evangelho da Quarta-feira de Cinzas (Mt 6, 1-6.16-18): “... quando deres esmola, não toques a trombeta diante de ti [..] Quando rezardes, não sejais como os hipócritas [...] Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio...”
Mas também nos relatos das tentações de Jesus, do Domingo I da Quaresma (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12-15; Lc 4, 1-13) encontramos a referência ao jejum, bem como a referência ao deserto como lugar do encontro intenso e íntimo com Deus e, por isso, como lugar da oração; não aparece explicitamente o terceiro elemento, a caridade, mas encontramo-la nas leituras da missa ao longo de todo o tempo quaresmal. Por isso, partimos precisamente do texto das tentações de Jesus, Evangelho que ouviremos proclamar no primeiro Domingo da Quaresma. Nesse texto são-nos apresentadas, de forma sintética, as características maiores deste tempo litúrgico e a forma de vivência que nos é proposta.

Quaresma: imitar Jesus no deserto (Lc 4, 1-4)

O deserto e a oração

Cheio do Espírito Santo e movido por ele, Jesus vai para o deserto. Ao situar o episódio das tentações no deserto, os evangelistas remetem para toda a história do povo de Deus, na qual o deserto aparece como lugar de significado ambivalente, ambíguo: é lugar de morte, lugar da provação, da tentação; mas ao mesmo tempo, é lugar da especial manifestação de Deus, de intensa relação com Ele, é lugar de escuta da Palavra, lugar da Aliança.
O deserto é o lugar do silêncio, da solidão.
Ir para o deserto significa, antes de mais, romper com as ocupações quotidianas, com as rotinas; significa afastar-se do ruído e da superficialidade. O deserto é, de facto, o lugar do encontro íntimo e intenso com Deus. No deserto faz Deus a Aliança com o seu povo; no deserto, multiplicou Deus os prodígios em favor dos seu eleitos, saciando a sua sede e fome, guiando os seus passos e dirigindo-lhes a sua palavra. Para Israel, ir para o deserto era regressar às origens do povo, à relação privilegiada com Deus; era reatar a Aliança, reencontrar o Deus salvador e libertador da escravidão. No livro do profeta Oseias, Deus, pela boca do profeta, usa a imagem da esposa adúltera, o povo, que o esposo, Deus, quer reconquistar:
“É assim que a vou seduzir: conduzi-la-ei ao deserto, para lhe falar ao coração [...] Aí, ela responderá como no tempo da sua juventude, como nos dias em que subiu da terra do Egipto. Naquele dia – Oráculo do Senhor – ela me chamará «Meu marido» e nunca mais «Meu Baal» [...] Então te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme o direito e a justiça com amor e misericórdia. Desposar-te-ei com fidelidade e tu conhecerás o Senhor” (Os 2, 16-25).
O “deserto” quaresmal é este convite à oração mais intensa; a reatar os laços da nossa relação com Deus, enfraquecida pela rotina do dia a dia. Na oração temos o “termómetro” da nossa relação com Deus. A Quaresma é o tempo favorável, que em cada ano nos é oferecido, para redescobrir e fazer reviver a nosso amor primeiro com Deus. E é nessa oração mais intensa, na escuta mais assídua da palavra de Deus que nos damos conta da necessidade de conversão!

Partindo desta imagem do deserto, descobrimos a Quaresma como um tempo de oração mais intensa, mas também de revisão de vida, de “retiro”. Em 1983, o então Cardeal J. Ratzinger (Papa Bento XVI), quando orientou os exercícios espirituais ao Papa João Paulo II e à Cúria Romana, afirmou: “os 40 dias da Quaresma são já, em si mesmos, os grandes exercícios espirituais que a Igreja nos oferece ano após ano”. A Quaresma é o “tempo favorável” para esse mais intenso encontro com Deus. Os 40 dias são-nos propostos como itinerário intenso de encontro com Deus, de conversão, de confronto da nossa vida com a Palavra de Deus.

O jejum

Jesus vai para o deserto e aí permanece 40 dias. Já se referiu que a Bíblia associa este número a períodos de espera, de preparação de algo importante, de humilhação, de esforço, de penitência e de luta. Só no fim dos 40 dias ou anos há o encontro, o prémio, o dom, a vitória. A referência ao número 40 remete pois para um itinerário de empenhamento e esforço, que conduz a uma nova situação.
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Ao longo de todo esse período, Jesus “não comeu nada”, diz-nos o evangelista Lc. Jesus Jejuou. No mundo bíblico, o jejum está claramente conotado com o deserto e com o simbolismo do número 40. Na travessia do deserto, ao longo de 40 anos, o povo sentiu fome; Moisés jejuou nos 40 dias no Sinai; Elias sentiu fome na sua caminhada para o Horeb; os ninivitas fizeram penitência e jejuaram depois da pregação de Jonas.
Ora, o jejum é uma prática penitencial. É sinal de arrependimento, de desejo de conversão. Elucidativo deste significado é a atitude dos ninivitas, diante da pregação de Jonas:
“Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, ordenaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao menor (...) Em seguida foi publicado, na cidade, por ordem do rei e dos príncipes, este decreto: «Os homens e os animais, os bois e as ovelhas não comam nada, não sejam levados a pastar nem bebam água. Os homens e os animais cubram-se de roupas grosseiras, e clamem a Deus com força; converta-se cada um do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos” (Jn 3, 5. 7-8).

Jejuar é privar-se do que é necessário, é reconhecer a dependência daquele que dá a bebida e a comida, isto é, de Deus. Isso mesmo expressa o livro do Deuteronómio:
“Recorda-te de todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te humilhar, para te experimentar, para conhecer o teu coração e ver se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou e te fez passar fome; depois alimentou-te com esse maná, que nem tu nem teus pais conhecíeis, para te ensinar que nem só de pão vive o homem; de tudo o que sai da boca do Senhor é que o homem viverá” (Dt 8, 2-3).
O deserto, os 40 dias ou 40 anos e o jejum remetem, assim, antes de mais, para a atitude de arrependimento, conversão, penitência.

O jejum faz parte da Quaresma! A abstinência de carne é apenas uma forma mitigada de jejum. É claro que hoje, falar de jejum não recolhe muita simpatia. Contudo, sem absolutizarmos tal prática, convém termos consciência da importância de renunciar a algo, de que o alimento é apenas um sinal sensível. S. Leão Magno di-lo de forma clara:
o jejum “não consiste só na abstinência dos alimentos, mas também e sobretudo em abster-se do pecado” (Sermão VI da Quaresma – Ofício de leitura da quinta-feira depois das Cinzas).
São João Crisóstomo utiliza uma linguagem pradoxal para dizer isso: “Como é possível que jejuando, não se jejue? É possível se, renunciando ao alimento habitual, não se renuncia ao pecado. Como é possível que, não jejuando, se jejue? É possível se se toma alimento, renunciando ao pecado. Este jejum é bem melhor que o outro; e não apenas melhor, mas ainda mais fácil” (cit. por A. Nocent, Célébrer Jesus-Christ. L'année liturgique 3. Carême, Paris 1976, 46).
O jejum é, pois, uma forma de ascese, uma “penitência do corpo para remédio do espírito”, na expressão da colecta da Segunda-feira da II semana da Quaresma.

Amor fraterno

Um terceiro meio para a conversão é o amor fraterno, a caridade. Na tradição cristã o termo mais usado era o da esmola. E sobre este meio não me pretendo alongar.
Não há oração verdadeira, expressão do amor a Deus, sem sincera atenção aos outros. O amor a Deus e ao próximo são inseparáveis.
Em cada ano, cada Diocese determina o destino a dar à “renúncia quaresmal”, o que mostra o quanto o jejum, aquilo a que se renuncia, está também ligado ao amor fraterno, à ajuda aos mais necessitados. Jejuar é também renunciar a alguma coisa para poder ajudar os outros.
Num belo sermão quaresmal, o Papa S. Leão Magno afirma:
... o jejum quaresmal consiste não só na abstenção dos alimentos, mas também e sobretudo em abster-se do pecado.
A estes santos jejuns nada virá juntar-se melhor do que a boa obra que é a esmola; sob este nome de obras de misericórdia incluem-se muitas e louváveis acções de bondade, nas quais todos os fiéis podem manifestar igualmente a sua disposição de espírito, por mais diversos que sejam os recursos de cada um.
Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá a nossa boa vontade. [...] São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite a todos os verdadeiros cristãos, tanto ricos como pobres, tomar parte na distribuição das esmolas; e embora nem todos possam ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam. (Sermão VI da Quaresma – Ofício de leitura da quinta-feira depois das Cinzas)

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Os três meios são inseparáveis

Os três meios por excelência para a conversão quaresmal, para nos prepararmos convenientemente para a celebração da Páscoa – a oração e a escuta mais intensa da Palavra de Deus, o jejum e o amor fraterno – são inseparáveis. Não se trata de escolher um deles, mas de os abraçar em conjunto. Di-lo claramente São Pedro Crisólogo, num sermão (Ofício de Leitura da terça-feira da III semana da Quaresma):
Há três coisas, irmãos, pelas quais se confirma a fé, se fortalece a devoção e se mantém a virtude: a oração, o jejum e a misericórdia. O que pede a oração, alcança-o o jejum e recebe-o a misericórdia. Oração, jejum e misericórdia: três coisas que são uma só e se vivificam mutuamente.
O jejum é a alma da oração, e a misericórdia é a vida do jejum. Ninguém tente dividi-las, porque são inseparáveis. Quem pratica apenas uma das três, ou não as pratica todas simultaneamente, na realidade não pratica nenhuma delas. Portanto, quem ora, jejue; e quem jejua, pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda as súplicas de quem lhe pede, pois aquele que não fecha os seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas. [...]
Façamos, portanto, destas três virtudes – oração, jejum, misericórdia – uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam para nós uma única defesa, uma única operação sob três formas distintas.

Quando o profeta ordenou ao general sírio Naamã que fosse lavar-se 7 vezes no Jordão, para ficar livre da lepra, Naamã ficou chocado e reagiu mal. Esperaria certamente algo de espetacular. Connosco pode suceder o mesmo: diante da simplicidade do caminho que a Quaresma nos propõe, diante da aparente banalidade dos meios que nos apresenta para a conversão, podemos ficar desapontados. Também nós desejaríamos algo mais espetacular e vistosos. Porém, Naamã banhou-se e ficou curado... Acolhamos a exortação de São Paulo: “Este é o tempo favorável, este é o dia da salvação” (2 Cor 6, 2: 2ª leitura de Quarta-feira de Cinzas e leitura breve das Vésperas I do I Domingo da Quaresma).

Dom Abade