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Pax!

P. Inácio; Na Habitação Eterna

Para evitar a palavra horrível, «morreu», vamos ao primeiro prefácio dos defuntos: «Para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma; e, desfeita a morada deste exílio terrestre, adquirimos no céu uma habitação eterna». Foi o que aconteceu ao P. Inácio.

Ele acreditava piedosamente na evidência do axioma que supera a nossa razão: “Nascemos, vivemos e morremos”, os três capítulos da nossa passagem pela terra. A morte que o colheu, a 27 de Dezembro de 2016, aos 92 anos de idade, encontrou-o vigilante. Estava tudo preparado. Após a notícia, vinda da Casa de Saúde dos Irmãos de S. João de Deus, em Areias de Vilar, Barcelos, onde P. Inácio, já muito debilitado, passou os últimos tempos da sua vida, entrámos no seu quarto para entregar à Funerária um hábito monástico, com que regressaria para ser inumado no cemitério de Roriz-Santo Tirso, junto aos nossos irmãos beneditinos falecidos. Vimos um saco branco bem cheio com a letra do seu próprio punho: «para o dia do meu funeral». Tudo novo, hábito, camisa branca e sapatos de luxo. Foi com este aparato, escolhido por ele, que apareceu diante de Deus.
P. Inácio nasceu em Esmoriz-Ovar, a 10 de Abril de 1924, recebendo na Pia Baptismal o nome de Luís. É uma terra com paisagem de sonho: os seus antigos e típicos palheiros de madeira, rentes à praia, são beleza absoluta em certos momentos do crepúsculo, onde a bacia lacustre da Barrinha comunica com a vastidão azul do mar, ao começar a espraiar-se acima da faixa do areal. Mar de contrastes, aprazível no Verão para os que gozam das delícias daquelas praias aveludadas por uma areia fina. Mas terrível e destruidor nas noites de Inverno, amordaçado por enorme paredão central, entre dois esporões, a impedir que ele avance pela Barrinha e destrua todas aquelas ruas e habitações, muitas delas pequeninas e pobres, porque é zona da faina marítima, de pescadores que ali labutam pela sua sobrevivência. Foi aqui, terreno propício de luta, que as rémiges do pequeno Luís cresceram para a vida, numa família numerosa; frequentou a Catequese e concluiu a Escola Primária.
Como menino mais ambicioso que os demais, já a entrar no estádio da adolescência, não se contentando com metade de um só fruto, mas querendo o pomo inteiro, foi bater às portas da Escola Claustral do Mosteiro de Cucujães, a meia dúzia de passos da sua terra, onde fez o primeiro ano preparatório, vindo a concluir as Humanidades na Escola Claustral do Mosteiro de Singeverga. Aqui entrou no noviciado com o nome de frei Inácio, palavra derivada do latim “ignis”, labareda que iria atear todos os lugares por onde passou. Conclui, com êxito, todas as etapas da vida monástica, culminando com a Profissão Solene, a 5 de Outubro de 1946. Cursou os estudos filosóficos e teológicos, e a 11 de Julho de 1948, recebe a Ordenação Sacerdotal pelas mãos do Senhor D. Ildefonso dos Santos Silva.
É o início de uma intensa vida apostólica, cá pelo norte do país, em missões da Palavra de Deus. Mais tarde, como missionário beneditino, iria atingir todo o seu esplendor em terras de além-mar, Leste de Angola. A partir de Janeiro de 1952, vamos encontra-lo como pároco da Sé de Silva Porto, a atear a tal chama do Evangelho do Reino de Deus, a condizer com o seu nome. O calor da sua palavra não podia confinar-se aos limites de âmbito local. Em breve, começa a utilizar a estação da rádio clube do Bié, com dois programas semanais: Amanhã é Domingo e Grandes Figuras Nacionais.
Com a nomeação de um novo bispo residencial e a criação da respectiva diocese, a acção pastoral dos beneditinos passou a localizar-se em terras do Leste. P. Inácio, naturalmente, com outros dos seus confrades, avança para a zona circunscrita ao distrito do Moxico e suas áreas periféricas. Assim, nos finais da década de cinquenta, já o vamos ver como pároco da Sé do Luena a desenvolver toda a sua experiência pastoral colhida nas terras de Bié, credenciando-o para acções promissoras ao serviço da Igreja de Deus em missão. E assim foi! A fundação do Colégio de S. Bento do Luso que acompanhou desde a sua génese e de que é membro co-fundador, as Conferências Vicentinas, os Cursos de Cristandade, a Legião de Maria, os clubes desportivos, os programas semanalmente radiodifundidos, são outros tantos marcos que as gerações actuais dele recordam com saudade.
Nos princípios da década de sessenta, roga-lhe a obediência a sua colaboração na obra do Mosteiro Novo, enviando-o a pregar e a colher donativos nas colónias portuguesas da Califórnia, Brasil, Venezuela e Nova-Inglaterra. Foram três anos de trabalho apostólico na difusão das actividades do Mosteiro em terras americanas. Em sinal de reconhecimento à causa da evangelização, em 1975, data do seu regresso definitivo de Angola, foi nomeado pela Sagrada Congregação da Propaganda da Fé Missionária, como Capelão dos imigrantes na Califórnia, e é nessa função que, anualmente, visitava a colónia aí radicada. O ponto mais alto da sua vida, foi no dia litúrgico do Glorioso Patriarca S. Bento, a 11 de Julho de 1998, Festa Jubilar dos 50 anos da sua ordenação sacerdotal, rodeado da sua família, de irmãos de hábito, muitos amigos de África e Oblatos, e da presença honrosa do Senhor Bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, que presidiu à Eucaristia.
Agora já no seio do eterno, seus restos mortais, tal esfinge promissora de
vida deífica, em campa rasa do nosso talhão monástico, força da terra a olhar o Céu, aguardam a ressurreição do último dia, num dormitório sem portas nem janelas, são companheiros do vento, das estrelas, dos relâmpagos e das nuvens… O destino quis que ele ficasse em frente ao Lar P. Inácio, por ele ajudado a construir com donativos da sua passagem por terras americanas e dos muitos amigos de Potugal. Paz à sua alma!

P. Abel Matias, osb.